Peça inútil

    Sentimentos que me afligem pairam sobre esta coroa de espinhos. Como lidar com estes medos, estas vontades... Estes arrependimentos. A vida me parece um tanto frágil, instável, nunca caminhando em linha reta. Basta um olhar ou palavra, e tudo está diferente.

    Houve um tempo em que se poderia dizer que o Sol amanheceria sem consigo trazer receios. Houve um tempo em que viver valia a pena, ou pelo menos se valia a pena continuar buscando como se viver. Hoje algo parece ter mudado. Saber que um futuro incerto caminha engolindo sonhos e desejos, algo imposto pela sociedade hipócrita que te faz se sentir inútil, isso faz com que a vontade de continuar seja insignificante. De que vale viver sem motivos?

    Não sei o quanto mereço estar vivo...

    Nunca saberei se este último autorretrato será usado como estampa da lápide anunciando minha morte.  Não saberei se esta será minha última ideia impressa, se as roupas que visto serão as últimas antes do terno escuro coberto por flores que exalam o odor doce e suave da morte. A vida é incerta, tanto quanto a morte. É um jogo onde sempre o mesmo lado irá ganhar, e garanto que este não é o seu.

    Imagine que o corpo humano seja a peça mais frágil de todo este jogo chamado vida, e que um desses corpos podem ser seus pais, seus irmãos ou seus amigos. Já pensou quão dura será a partida? Já imaginou a despedida de quem mais se ama, para nunca mais vê-la? A vida pode ser bela, mas há uma beleza sádica aqui, uma beleza que não nega esforços para testar sua força, sua vontade e seus objetivos.

    Se há uma peça sem propósitos que valham a pena, jogue-a como benefício para outra maior. Não seja esta peça, não quero ser esta peça, espero nunca presenciar a hora em que esta peça for usada. 

Manhã

Nasce a luz
As cores mudam.
Muda o azul, o verde e o laranja
O amarelo e o lilás também se encontram
Em instantes todas as cores dançam.

Acorda os galos e os trabalhadores
Aquela gente que a gente insiste em não perceber.
Pede licença à névoa gélida
Que aceita sem se enfurecer.

Deixa aquele cheiro suave
Que de memórias distantes
De momentos felizes
Faz sorrisos aparecer.

As árvores balançam
Acordam os pássaros
Tratam de voar e cantar 
Gritar e abanar.

O silêncio não existe mais.

Sinal de vida.

Alegria no ar.

Um forte azul se entranha
Chega de manha
Chega a manhã.

Gente reclama 
Gente se alegra 
Mas sem muito pensar 
Todos percebem que mais um dia acaba de acordar.

Vocação


Queria ser escritor, mas escrever eu não sabia. Queria ser professor, mas o que ensinar não havia. Tentei então ser escultor, mas minhas obras ninguém entendia. Por fim, restou-me o amor, que há muito eu não vivia.

Lembrei-me então da dor e da mágoa que ele trazia, assim sentei-me ao canto e logo me veio uma melodia. Melosa e suave, mas que tristes recordações trazia. Então, veja só que emoção, encontrei minha vocação: depois de muito tentar, percebi que sabia compor uma linda canção.

Cantei num barzinho e todo mundo gostou, logo ouvi de longe, baixinho: "olha só meu sinhô, veja só que bom compositô". Larguei minha vida e lancei-me na estrada, não passou muito tempo e minha melodia se encontrava nas paradas.

Era autógrafo, era fã, era coisa que não acabava mais, talvez não fosse isso que eu buscasse tempos atrás.

Já cansado e abatido, encontrei um velho amigo: um fazendeiro muito bem-sucedido. Olhei com atenção e vi sua expressão: suave e despreocupado, com muita felicidade no coração. Que inveja que senti, tenho que admitir; imagine se fosse eu que estivesse ali? Não foi nem um dia e logo me veio a euforia: larguei tudo outra vez com convicção, estava decidido a voltar para o sertão.

Chegando lá meu amigo, você nem vai acreditar, estava tudo tranquilo e nenhum autógrafo teria de dar. Sabia agora que ali era minha vida e dali nunca devia ter partido, sabia agora que dali jamais haveria de mudar.

Análise;

Enquanto me aprofundo em meu ser, algumas coisas parecem se tornar tão difíceis ao ponto de parecerem simples. Simples somente em minha cabeça, meu mundo imaginário, onde qualquer situação se torna uma história com um final feliz. Procuro uma razão para este tormento em cada um dos meus passos dados, mas a cada passo que retorno tudo se torna mais escuro e sujo, ao ponto de eu me perder. Eu só preciso de uma explicação e um conforto, um conforto psicológico que faça com que me adapte a esse mundo, a essa situação. É injusto pensar que isso se resume a mim, porém seria injusto tratá-lo com desdém; algo tão pesado psicologicamente que se torna físico. Tento acreditar em minhas próprias palavras de que não me importo, mas na realidade, o maior dos problemas é sobre eu me importar. No final, acabo sempre sem uma conclusão, uma resposta; continua a dúvida e o peso sobre minhas costas e minha mente. Tentar parecer normal está longe de ser uma opção, mas acaba sendo meu único caminho para esta realidade.

O diário de um sobrevivente #1

O Sol nasce, os pássaros começam a cantoria matinal - apesar de passar despercebida na maioria das minhas manhãs. Abrir as janelas nem pensar, tampouco as portas e portões. Checar os cantos e ruas, becos e vielas, casas vizinhas e todos outros lugares possíveis.

Feito! Agora ir às compras...

Sabe, sair de casa poderia parecer prazeroso e tudo o mais, encontrar os amigos, ou uma caminhada rotineira... Parecia! Agora sair de casa pode ser a última coisa que fará em toda a sua vida. Não há amigos para encontrar ou cachorros e gatos correndo pelos lados, não. Existem pessoas! Sim, existem muitas pessoas que posso encontrar a qualquer momento, mas não digo que seria algo interessante e saudável. Veja bem, não sou uma pessoa antissocial, até gostaria de poder conversar com todas as pessoas que visse pela frente, porém isso, agora, poderia custar minha vida.
Checar o local: feito.