Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

Eu Físico


E então, seu eu físico desprendia-se de seu eu interior. Todos os responsáveis pelo processo de armazenamento e construção de sua personalidade agora trabalhavam em conjunto para transpor a linha tênue que separa o mundo denominado “material” para o mundo erroneamente denominado “espiritual”. Na verdade, tudo não passaria de um processo físico, por hora inexplicável, que levaria toda a informação que compunha quem ele era para outro local.

Todas as lembranças, ideias, pensamentos e personalidades seriam compactadas em um único fim, o qual seria a forma não física que o representaria à partir dali. Sua mente usava então sua última carga de energia para buscar em todos os universos um local apropriado para uma vida infinita e utópica, onde poderia estabelecer-se para sempre. Porém a busca logo termina, pois, em nossa evolução, todo o processo de busca ficara gravado no DNA humano, assim tornando todo o processo de busca demasiadamente mais curto.

Compactado o seu ser e encontrado o local, agora restava apenas a migração para a nova realidade.

Lá havia o que, para qualquer ser humano, seria a representação do nada. Uma imensidão branca, reluzente, pacifica e tranquila. Pessoas de todas as formas e cores caminhavam para todas as direções, expressando o que o ambiente transmitia: paz. Ele percebia que conhecia detalhes espalhados pela imensidão branca: edifícios e mares, praias e florestas compunham a parte plana da imensidão, algo como memórias de nosso mundo, vivas e físicas.

Vivenciado o local por dias, ele agora podia avistar personalidades famosas de nosso mundo. Pessoas da música, da pintura, do esporte e da arquitetura, todas caminhando como cidadãos normais em um dia qualquer de suas vidas. Via também que, enquanto algumas pessoas apontavam para lugares apenas preenchidos pelo branco reluzente, nestes cresciam do nada, memórias de nosso mundo. Estátuas e castelos compunham o que aparecia. Ele entendia que a imensidão era preenchida por memórias de pessoas que, como ele, já não pertenciam mais ao planeta Terra.

Após meses vivenciando a imensidão branca, agora ele compreendia a essência daquele lugar: sua mente desprendera de seu corpo físico e migrara para uma realidade em outro universo, onde as leis da física não se igualavam às nossas. Entendia agora que, na Terra, sua vida valeu apenas para a construção de seu ser, e que, naquele lugar, viveria para sempre, estável e imaterial. Compreendia que a morte não era nada além de um processo matemático e palpável, algo simples e natural. 

O diário de um sobrevivente #1

O Sol nasce, os pássaros começam a cantoria matinal - apesar de passar despercebida na maioria das minhas manhãs. Abrir as janelas nem pensar, tampouco as portas e portões. Checar os cantos e ruas, becos e vielas, casas vizinhas e todos outros lugares possíveis.

Feito! Agora ir às compras...

Sabe, sair de casa poderia parecer prazeroso e tudo o mais, encontrar os amigos, ou uma caminhada rotineira... Parecia! Agora sair de casa pode ser a última coisa que fará em toda a sua vida. Não há amigos para encontrar ou cachorros e gatos correndo pelos lados, não. Existem pessoas! Sim, existem muitas pessoas que posso encontrar a qualquer momento, mas não digo que seria algo interessante e saudável. Veja bem, não sou uma pessoa antissocial, até gostaria de poder conversar com todas as pessoas que visse pela frente, porém isso, agora, poderia custar minha vida.
Checar o local: feito.

Conto: Em busca da felicidade...

Caminhava ela desprevenida, sem medos e preocupações. Olhava ao seu redor procurando por algo, como um olho doente em desfoco procura por um objeto distante ou próximo para focar.


Enquanto vivia tentava sorrir, quando a felicidade de outros extraía. Mas ela não sorria, tampouco sentia prazer. Repugnava seu ser e desejava a morte a todo instante.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiyuo9eDmvrMqQ_QliYpBMs0DIX10o2uG-6M_yNn-Q5EikjKBWn1icjtUJkDKTaaC5TEDw_22oI1Lv5gckT_NcZLq7-s35PJ5H4mVpAUDhUS-rj-B5J-HMDRrZv6k0f7oz4kYCTwdseQGY/Era tarde, o céu tingido de rosa e laranja banhava os sorrisos por toda a cidade. Todos tão depressa, por ela passavam tão lentamente como a última folha que cai ao início do inverno. Ela teria que dar um fim a toda alegria, ela, apenas ela o faria.

Olhava atentamente em todos os cantos da cidade, à procura de alguém tão infeliz quanto ela. Mas não era possível, obviamente. Nem a mais pobre das pessoas, nem a mais doente, nem a mais deformada. Nem mesmo a mais solitária das pessoas seria tão infeliz quanto ela. Mas ela ainda procurava.

Ao fim da tarde, estava atrasada. Hora de buscar alguém com pouca sorte, que a encontre beirando a morte. E então, ela encontrou...

O homem estava deitado em sua cama, doente e velho, mal respirava. Amparava seus filhos que o cercavam, tentava cessar suas lágrimas, mas todo esforço era em vão...

Ela bateu em sua porta, mas ninguém deu atenção. Nem mesmo ao ranger quando abriu, ou ao forte bater quando fechou. Sempre despercebida, sempre sozinha, ela pegou seu instrumento e levou ao encontro do velho doente.

Olhava para ele com pena, como se não quisesse fazer aquilo. Era sua obrigação, mas daria a vida para não o fazer. Apesar disso, não tinha outra forma: teria que levá-lo.

O velho doente olhava para ela com contentamento, tentando também ampará-la para que não se entristecesse. Ela por sua vez, não o olhava nos olhos, tinha medo de sua reação, pois ninguém se alegrava em vê-la. Entretanto, o velho segurou em sua mão por cima da velha capa, de onde saiu poeira e vento, como se ali ninguém nunca tocara. Ela o olhou nos olhos, finalmente via a felicidade onde pensava que não existia, ela então sorriu, como retribuição.

Ela segurou na velha e enrugada mão do homem, e levantou-o de sua cama. Saíram pela porta da frente enquanto ele ainda sorria. Ela o soltou e o viu partir, que acenava para ela enquanto ia.

Já era noite, ela caminhava pensante. Como seu último escolhido podia sorrir naquele instante? Curiosa, sentia algo diferente, algo que jamais sentira em toda sua existência: "Podia existir alegria na morte."

A morte então continuou sua caminhada, motivada agora a não levar consigo a tristeza, mas sim a alegria de quem buscava uma nova jornada. Bateu suas asas e voou, quando sua capa preta fundiu-se com a noite e desapareceu em meio a escuridão. Sorrindo, foi para bem longe, onde outro alguém, tão feliz em vê-la quanto seu último escolhido, encontrou.

Conto: A Menina e o Morangueiro. Parte II

  O jovem cavaleiro logo caiu em si, e entendeu que esta era a bruxa que enfeitiçara Margarette. Sentiu uma incontrolável vontade de atravessar sua espada pelo corpo da bruxa, mas acalmou-se e continuou espiando.


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0Ppo_xeyCWBK58ECrkzez0_-TtYounSKtCPLjoxm6BUkC-L3RHvwBw3e9-Nesl1JoMWoUIiA1XoFhBKxNxgSI16AHRMGKungJkKXFuYmD6p14RIxYvLgbv3_4D11HPpH7XUuNpMcksho/  Passaram-se alguns minutos, e a bruxa apagou a fogueira e foi para casa. O jovem cavaleiro a seguiu, tentando evitar qualquer tipo de barulho. Caminharam poucos metros, até que chegaram à velha casa. Margarette já estava em sua forma humana, e olhava atentamente pela janela, à procura de seu companheiro.

— Esperando alguém, minha querida? — Perguntou a bruxa, em tom sarcástico.

— Não, minha senhora. — Respondeu-lhe Margarette, tão triste como uma noite sem luar.

— Você continua tão bela como sempre, como é possível? — A bruxa segurava uma das mechas dos longos cabelos de Margarette. — Será minha prisioneira por muito tempo, acredito. As outras pobres donzelas... Suas belas feições eram tão passageiras que me arrependo de tê-las feito minhas prisioneiras. Um feitiço tão complicado como este, de transferência de beleza e revitalização, não pode ser desperdiçado com qualquer uma, não é mesmo? — A bruxa parecia pensativa, como se lembrasse de cada uma de suas vítimas.

— Sim, minha senhora. — Respondeu Margarette, ainda mais triste.

  Enquanto a bruxa tagarelava nos ouvidos de Margarette, o jovem cavaleiro espreitava ao redor da casa, preparando-se para entrar e atacar. Estava agachado em baixo do peitoril da janela, ouvindo a conversa. Foi então que tudo ficou em silêncio, apenas os sons da floresta eram perceptíveis. Sentiu um arrepio em sua espinha, olhou para trás e viu algo como fumaça se formando atrás dele. Nunca havia visto algo assim, mas logo imaginou o que seria: bruxaria. Retirou sua espada da bainha e a pôs em ordem de batalha, mas a bruxa não o atacou.

Conto: A menina e o Morangueiro.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0Ppo_xeyCWBK58ECrkzez0_-TtYounSKtCPLjoxm6BUkC-L3RHvwBw3e9-Nesl1JoMWoUIiA1XoFhBKxNxgSI16AHRMGKungJkKXFuYmD6p14RIxYvLgbv3_4D11HPpH7XUuNpMcksho/  Era uma vez, uma linda menina que todos os dias ia para os longínquos bosques recolher flores para sua mãe doente. Uma vez, durante a viagem ao bosque, a menina foi surpreendida por uma velha, que estava atirada ao chão e pedia por ajuda. A menina, de muito bom coração, estendeu sua mão para ajudar a pobre velha.
  
  Seu rosto estava coberto por uma capa negra e velha, e suas mãos aparentavam ser tão velhas quanto o tempo. A menina, como uma amiga, pediu para que a velha retirasse o capuz para que ela a examinasse, para o caso de haver algum ferimento. A velha, com um sorriso malicioso, retirou o capuz. Seu rosto era pálido como a neve, e tão aparentemente velho quanto suas mãos. 
  
 A menina aterrorizou-se, mas não o demonstrou. Despediu-se da velha e pôs-se a caminhar. Mas não tardou e a velha a agarrou pelos braços, surrealmente forte, e disse que queria a agradecer.

— Muito obrigado minha jovem, muitos não parariam para me ajudar. — Disse a velha, ainda com o mesmo sorriso malicioso em seu rosto. 
— Por nada senhora, mas infelizmente tenho que ir, minha mãe me espera. — Insistiu.
— Espere! Tenho um presente como retribuição. — A velha estendeu sua mão, e nela havia um pequeno, mas aparentemente suculento morango.
  
 A menina apanhou o pequeno morango e agradeceu, mas a velha, insistente, pediu para que ela o comesse, dizendo que era o melhor exemplar que ela poderia comer em vida. A menina com muita fome e atraída pelo lindo morango, o pôs em sua boca.
  
 De início, sentiu-se maravilhada pelo quão saboroso era o morango. Mas em seguida, sentiu uma forte dor por todo seu corpo. Contorcendo-se, foi ao chão como se suas pernas não mais a agüentassem. Gritava por ajuda ao mesmo tempo em que chorava. A velha a olhava com o mesmo sorriso malicioso, mas agora exibia-se como vitoriosa.

Conto: O quão mórbido é o amor.

Caminhava o casal apaixonado. Fria e melancólica, a noite chorava por sua brisa, visível através da luz dos vários postes enfileirados pela rua.

Sentaram-se em um banco, tão gélido que recuaram ao tocá-lo. Abraçaram-se. Por trás, um homem encapuzado aproximava-se lentamente. As mãos aos bolsos do longo sobretudo garantiam-lhe um ar misterioso, mas não ameaçador - afinal de contas, estava muito frio. Ainda caminhando, sacou de seu bolso um objeto metálico, que refletia a pálida luz do luar que, tímido, escondia-se sobre um punhado de nuvens passageiras.

Antes que o rapaz apaixonado pudesse perceber, a faca atravessara sua amada violentamente que, já sem vida, caiu sobre seus braços. O homem encapuzado apanhou as jóias da pobre mulher e desapareceu sobre a névoa.

Ainda em estado de choque, o inconsolável rapaz olhava para suas mãos. O sangue quente escorria por elas até chegar ao chão e tingi-lo de vermelho. Ele tentava reanimá-la, mas já não havia tempo, ela já estava morte. Desesperado, pôs suas mãos trêmulas por debaixo de sua amada e a carregou até sua casa, onde a colocou sobre sua cama. Limpou o sangue e a cobriu, deitou ao seu lado e dormiu.

Passaram-se dias; ele ainda mantinha o cadáver em seus aposentos. O odor que exalava do defunto era quase insuportável, mas ele ainda dormia ao seu lado por todas as noites.

O ar mórbido e triste o deixava ainda mais fora de si, até que, vendo o estado que se encontrava os restos mortais de sua companheira, não restou-lhe outra opção a não ser substituir aquele corpo.

Saiu pela noite, como quem sai para passear. Avistou uma mulher que caminhava sozinha e desatenta. A rua estava deserta - ela era seu alvo. Da mesma forma que sua amada fora assassinada, ele atravessou as costas da mulher com uma faca pontiaguda, que nem ao menos teve tempo para um último suspiro. Seu corpo fora carregado pelo rapaz desolado, que parecia não se importar com o sangue que escorria.

Mês após mês ele mantinha sua rotina assassina. Substituía os corpos quando já não suportava o odor. Sua cama, tão pútrida quanto os corpos que por sobre ela jaziam, sua casa tão fétida quanto é possível de se imaginar; doente e fraco, pressentia que seus últimos dias se aproximavam.

Driblou a lei o quanto pôde, até que por fim o descobriram. Cercado pelo medo e desgosto, voltou a si. Prestando atenção em tudo a sua volta, via-se diante de uma carnificina inimaginável e, olhando para si, viu que há muito já não era mais o mesmo. Ele havia cometido tudo aquilo e, naquele momento encontrava-se sem saída. Percebeu o monstro que se tornara, mas já era tarde demais para voltar.

Correu até o porão onde guardara sua amada, ou o que restara de seu corpo. Apanhou a faca que trazia em seu bolso e, trêmulo, atravessou seu próprio peito, que pulava com as pulsações exaustivas de seu coração. Em seus últimos suspiros e forças, deitou-se ao lado do cadáver e fechou os olhos. Em um momento súbito, uma imagem veio-lhe como um conforto: o sorriso caloroso de seu grande amor. Sua lembrança mais pura e inocente de um tempo do qual jamais teria de volta.

Uma lágrima escorreu sobre seu rosto e, com o pouco de força que lhe restava, pediu perdão.

O amor, apesar de puro, tornou-o sádico, envenenou sua alma e afetou sua mente. Inerte a situação e impulsionado pelo ódio, fez com que sentissem o que ele sentiu, apesar de que esse não era o motivo dos homicídios. Queria, apesar de tudo, que sua amada estivesse com ele para sempre, mesmo que para isso tivesse que sacrificar sua sanidade - ou a si mesmo -, pois toda sua essência havia partido junto de seu grande e verdadeiro amor.

Conto: Em meio ao nevoeiro

Lá estava ele, tomado por lagrimas, enquanto via sua amada partir.
A beira mar, pés sob a areia molhada pela chuva, que pareciam completar suas lágrimas.

Ela ia desaparecendo em meio ao nevoeiro, que engoliu tudo à sua frente.

Nós não podíamos ficar juntos – ele pensava.
Nós enfrentaríamos as barreiras – ele dizia.

Enquanto ainda ouvia-se o roncar do motor do barco, ele pensava em todos os momentos felizes em que viveram, pensava no amor que sentia por ela, pensava apenas nela. Mas ela teve de partir, mas ela teve de acompanhar os pais – que ainda traçavam seu caminho.

Ainda nos veremos – ele gritou.

Enquanto suas lagrimas se confundiam com as gotas melancólicas da chuva, ele olhava atentamente para o horizonte nublado à sua frente, desorientado, sentou-se ao chão, e viu um pingente em formato de coração, caído sob a areia.
Pegou-o e viu o nome de sua amada, apertou firme e colocou dentro do bolso da camisa.

Enquanto seu coração estiver próximo ao meu, sempre estaremos juntos – ele falou.