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Duvida


De que será foi feita toda essa água?
E essa mágoa que corrói
Terá a manhã me perdoado
Por tê-la trocado pelas tardes de sábado?
Tudo isso dói.
Tudo isso sangra.
Sinto receios, tenho medo do fim.
Tem a questão da morte
Mas não é isso que me preocupa.
Não tocar o céu, ou ver as estrelas
Não ouvir o mar, ou ela respirar
Desejar pra sempre
E uma hora acabar.
Se a minha consciência
Me deixasse de lado
Se toda essa lógica
Abrisse a porta e partisse
Se eu pudesse então
Vê-la brilhar
Será o que será
Não vou duvidar.

Vocação


Queria ser escritor, mas escrever eu não sabia. Queria ser professor, mas o que ensinar não havia. Tentei então ser escultor, mas minhas obras ninguém entendia. Por fim, restou-me o amor, que há muito eu não vivia.

Lembrei-me então da dor e da mágoa que ele trazia, assim sentei-me ao canto e logo me veio uma melodia. Melosa e suave, mas que tristes recordações trazia. Então, veja só que emoção, encontrei minha vocação: depois de muito tentar, percebi que sabia compor uma linda canção.

Cantei num barzinho e todo mundo gostou, logo ouvi de longe, baixinho: "olha só meu sinhô, veja só que bom compositô". Larguei minha vida e lancei-me na estrada, não passou muito tempo e minha melodia se encontrava nas paradas.

Era autógrafo, era fã, era coisa que não acabava mais, talvez não fosse isso que eu buscasse tempos atrás.

Já cansado e abatido, encontrei um velho amigo: um fazendeiro muito bem-sucedido. Olhei com atenção e vi sua expressão: suave e despreocupado, com muita felicidade no coração. Que inveja que senti, tenho que admitir; imagine se fosse eu que estivesse ali? Não foi nem um dia e logo me veio a euforia: larguei tudo outra vez com convicção, estava decidido a voltar para o sertão.

Chegando lá meu amigo, você nem vai acreditar, estava tudo tranquilo e nenhum autógrafo teria de dar. Sabia agora que ali era minha vida e dali nunca devia ter partido, sabia agora que dali jamais haveria de mudar.

Conto: A Menina e o Morangueiro. Parte II

  O jovem cavaleiro logo caiu em si, e entendeu que esta era a bruxa que enfeitiçara Margarette. Sentiu uma incontrolável vontade de atravessar sua espada pelo corpo da bruxa, mas acalmou-se e continuou espiando.


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0Ppo_xeyCWBK58ECrkzez0_-TtYounSKtCPLjoxm6BUkC-L3RHvwBw3e9-Nesl1JoMWoUIiA1XoFhBKxNxgSI16AHRMGKungJkKXFuYmD6p14RIxYvLgbv3_4D11HPpH7XUuNpMcksho/  Passaram-se alguns minutos, e a bruxa apagou a fogueira e foi para casa. O jovem cavaleiro a seguiu, tentando evitar qualquer tipo de barulho. Caminharam poucos metros, até que chegaram à velha casa. Margarette já estava em sua forma humana, e olhava atentamente pela janela, à procura de seu companheiro.

— Esperando alguém, minha querida? — Perguntou a bruxa, em tom sarcástico.

— Não, minha senhora. — Respondeu-lhe Margarette, tão triste como uma noite sem luar.

— Você continua tão bela como sempre, como é possível? — A bruxa segurava uma das mechas dos longos cabelos de Margarette. — Será minha prisioneira por muito tempo, acredito. As outras pobres donzelas... Suas belas feições eram tão passageiras que me arrependo de tê-las feito minhas prisioneiras. Um feitiço tão complicado como este, de transferência de beleza e revitalização, não pode ser desperdiçado com qualquer uma, não é mesmo? — A bruxa parecia pensativa, como se lembrasse de cada uma de suas vítimas.

— Sim, minha senhora. — Respondeu Margarette, ainda mais triste.

  Enquanto a bruxa tagarelava nos ouvidos de Margarette, o jovem cavaleiro espreitava ao redor da casa, preparando-se para entrar e atacar. Estava agachado em baixo do peitoril da janela, ouvindo a conversa. Foi então que tudo ficou em silêncio, apenas os sons da floresta eram perceptíveis. Sentiu um arrepio em sua espinha, olhou para trás e viu algo como fumaça se formando atrás dele. Nunca havia visto algo assim, mas logo imaginou o que seria: bruxaria. Retirou sua espada da bainha e a pôs em ordem de batalha, mas a bruxa não o atacou.

Conto: A menina e o Morangueiro.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0Ppo_xeyCWBK58ECrkzez0_-TtYounSKtCPLjoxm6BUkC-L3RHvwBw3e9-Nesl1JoMWoUIiA1XoFhBKxNxgSI16AHRMGKungJkKXFuYmD6p14RIxYvLgbv3_4D11HPpH7XUuNpMcksho/  Era uma vez, uma linda menina que todos os dias ia para os longínquos bosques recolher flores para sua mãe doente. Uma vez, durante a viagem ao bosque, a menina foi surpreendida por uma velha, que estava atirada ao chão e pedia por ajuda. A menina, de muito bom coração, estendeu sua mão para ajudar a pobre velha.
  
  Seu rosto estava coberto por uma capa negra e velha, e suas mãos aparentavam ser tão velhas quanto o tempo. A menina, como uma amiga, pediu para que a velha retirasse o capuz para que ela a examinasse, para o caso de haver algum ferimento. A velha, com um sorriso malicioso, retirou o capuz. Seu rosto era pálido como a neve, e tão aparentemente velho quanto suas mãos. 
  
 A menina aterrorizou-se, mas não o demonstrou. Despediu-se da velha e pôs-se a caminhar. Mas não tardou e a velha a agarrou pelos braços, surrealmente forte, e disse que queria a agradecer.

— Muito obrigado minha jovem, muitos não parariam para me ajudar. — Disse a velha, ainda com o mesmo sorriso malicioso em seu rosto. 
— Por nada senhora, mas infelizmente tenho que ir, minha mãe me espera. — Insistiu.
— Espere! Tenho um presente como retribuição. — A velha estendeu sua mão, e nela havia um pequeno, mas aparentemente suculento morango.
  
 A menina apanhou o pequeno morango e agradeceu, mas a velha, insistente, pediu para que ela o comesse, dizendo que era o melhor exemplar que ela poderia comer em vida. A menina com muita fome e atraída pelo lindo morango, o pôs em sua boca.
  
 De início, sentiu-se maravilhada pelo quão saboroso era o morango. Mas em seguida, sentiu uma forte dor por todo seu corpo. Contorcendo-se, foi ao chão como se suas pernas não mais a agüentassem. Gritava por ajuda ao mesmo tempo em que chorava. A velha a olhava com o mesmo sorriso malicioso, mas agora exibia-se como vitoriosa.

Conto: O quão mórbido é o amor.

Caminhava o casal apaixonado. Fria e melancólica, a noite chorava por sua brisa, visível através da luz dos vários postes enfileirados pela rua.

Sentaram-se em um banco, tão gélido que recuaram ao tocá-lo. Abraçaram-se. Por trás, um homem encapuzado aproximava-se lentamente. As mãos aos bolsos do longo sobretudo garantiam-lhe um ar misterioso, mas não ameaçador - afinal de contas, estava muito frio. Ainda caminhando, sacou de seu bolso um objeto metálico, que refletia a pálida luz do luar que, tímido, escondia-se sobre um punhado de nuvens passageiras.

Antes que o rapaz apaixonado pudesse perceber, a faca atravessara sua amada violentamente que, já sem vida, caiu sobre seus braços. O homem encapuzado apanhou as jóias da pobre mulher e desapareceu sobre a névoa.

Ainda em estado de choque, o inconsolável rapaz olhava para suas mãos. O sangue quente escorria por elas até chegar ao chão e tingi-lo de vermelho. Ele tentava reanimá-la, mas já não havia tempo, ela já estava morte. Desesperado, pôs suas mãos trêmulas por debaixo de sua amada e a carregou até sua casa, onde a colocou sobre sua cama. Limpou o sangue e a cobriu, deitou ao seu lado e dormiu.

Passaram-se dias; ele ainda mantinha o cadáver em seus aposentos. O odor que exalava do defunto era quase insuportável, mas ele ainda dormia ao seu lado por todas as noites.

O ar mórbido e triste o deixava ainda mais fora de si, até que, vendo o estado que se encontrava os restos mortais de sua companheira, não restou-lhe outra opção a não ser substituir aquele corpo.

Saiu pela noite, como quem sai para passear. Avistou uma mulher que caminhava sozinha e desatenta. A rua estava deserta - ela era seu alvo. Da mesma forma que sua amada fora assassinada, ele atravessou as costas da mulher com uma faca pontiaguda, que nem ao menos teve tempo para um último suspiro. Seu corpo fora carregado pelo rapaz desolado, que parecia não se importar com o sangue que escorria.

Mês após mês ele mantinha sua rotina assassina. Substituía os corpos quando já não suportava o odor. Sua cama, tão pútrida quanto os corpos que por sobre ela jaziam, sua casa tão fétida quanto é possível de se imaginar; doente e fraco, pressentia que seus últimos dias se aproximavam.

Driblou a lei o quanto pôde, até que por fim o descobriram. Cercado pelo medo e desgosto, voltou a si. Prestando atenção em tudo a sua volta, via-se diante de uma carnificina inimaginável e, olhando para si, viu que há muito já não era mais o mesmo. Ele havia cometido tudo aquilo e, naquele momento encontrava-se sem saída. Percebeu o monstro que se tornara, mas já era tarde demais para voltar.

Correu até o porão onde guardara sua amada, ou o que restara de seu corpo. Apanhou a faca que trazia em seu bolso e, trêmulo, atravessou seu próprio peito, que pulava com as pulsações exaustivas de seu coração. Em seus últimos suspiros e forças, deitou-se ao lado do cadáver e fechou os olhos. Em um momento súbito, uma imagem veio-lhe como um conforto: o sorriso caloroso de seu grande amor. Sua lembrança mais pura e inocente de um tempo do qual jamais teria de volta.

Uma lágrima escorreu sobre seu rosto e, com o pouco de força que lhe restava, pediu perdão.

O amor, apesar de puro, tornou-o sádico, envenenou sua alma e afetou sua mente. Inerte a situação e impulsionado pelo ódio, fez com que sentissem o que ele sentiu, apesar de que esse não era o motivo dos homicídios. Queria, apesar de tudo, que sua amada estivesse com ele para sempre, mesmo que para isso tivesse que sacrificar sua sanidade - ou a si mesmo -, pois toda sua essência havia partido junto de seu grande e verdadeiro amor.

Conto: Em meio ao nevoeiro

Lá estava ele, tomado por lagrimas, enquanto via sua amada partir.
A beira mar, pés sob a areia molhada pela chuva, que pareciam completar suas lágrimas.

Ela ia desaparecendo em meio ao nevoeiro, que engoliu tudo à sua frente.

Nós não podíamos ficar juntos – ele pensava.
Nós enfrentaríamos as barreiras – ele dizia.

Enquanto ainda ouvia-se o roncar do motor do barco, ele pensava em todos os momentos felizes em que viveram, pensava no amor que sentia por ela, pensava apenas nela. Mas ela teve de partir, mas ela teve de acompanhar os pais – que ainda traçavam seu caminho.

Ainda nos veremos – ele gritou.

Enquanto suas lagrimas se confundiam com as gotas melancólicas da chuva, ele olhava atentamente para o horizonte nublado à sua frente, desorientado, sentou-se ao chão, e viu um pingente em formato de coração, caído sob a areia.
Pegou-o e viu o nome de sua amada, apertou firme e colocou dentro do bolso da camisa.

Enquanto seu coração estiver próximo ao meu, sempre estaremos juntos – ele falou.