Duvida


De que será foi feita toda essa água?
E essa mágoa que corrói
Terá a manhã me perdoado
Por tê-la trocado pelas tardes de sábado?
Tudo isso dói.
Tudo isso sangra.
Sinto receios, tenho medo do fim.
Tem a questão da morte
Mas não é isso que me preocupa.
Não tocar o céu, ou ver as estrelas
Não ouvir o mar, ou ela respirar
Desejar pra sempre
E uma hora acabar.
Se a minha consciência
Me deixasse de lado
Se toda essa lógica
Abrisse a porta e partisse
Se eu pudesse então
Vê-la brilhar
Será o que será
Não vou duvidar.

Eu Físico


E então, seu eu físico desprendia-se de seu eu interior. Todos os responsáveis pelo processo de armazenamento e construção de sua personalidade agora trabalhavam em conjunto para transpor a linha tênue que separa o mundo denominado “material” para o mundo erroneamente denominado “espiritual”. Na verdade, tudo não passaria de um processo físico, por hora inexplicável, que levaria toda a informação que compunha quem ele era para outro local.

Todas as lembranças, ideias, pensamentos e personalidades seriam compactadas em um único fim, o qual seria a forma não física que o representaria à partir dali. Sua mente usava então sua última carga de energia para buscar em todos os universos um local apropriado para uma vida infinita e utópica, onde poderia estabelecer-se para sempre. Porém a busca logo termina, pois, em nossa evolução, todo o processo de busca ficara gravado no DNA humano, assim tornando todo o processo de busca demasiadamente mais curto.

Compactado o seu ser e encontrado o local, agora restava apenas a migração para a nova realidade.

Lá havia o que, para qualquer ser humano, seria a representação do nada. Uma imensidão branca, reluzente, pacifica e tranquila. Pessoas de todas as formas e cores caminhavam para todas as direções, expressando o que o ambiente transmitia: paz. Ele percebia que conhecia detalhes espalhados pela imensidão branca: edifícios e mares, praias e florestas compunham a parte plana da imensidão, algo como memórias de nosso mundo, vivas e físicas.

Vivenciado o local por dias, ele agora podia avistar personalidades famosas de nosso mundo. Pessoas da música, da pintura, do esporte e da arquitetura, todas caminhando como cidadãos normais em um dia qualquer de suas vidas. Via também que, enquanto algumas pessoas apontavam para lugares apenas preenchidos pelo branco reluzente, nestes cresciam do nada, memórias de nosso mundo. Estátuas e castelos compunham o que aparecia. Ele entendia que a imensidão era preenchida por memórias de pessoas que, como ele, já não pertenciam mais ao planeta Terra.

Após meses vivenciando a imensidão branca, agora ele compreendia a essência daquele lugar: sua mente desprendera de seu corpo físico e migrara para uma realidade em outro universo, onde as leis da física não se igualavam às nossas. Entendia agora que, na Terra, sua vida valeu apenas para a construção de seu ser, e que, naquele lugar, viveria para sempre, estável e imaterial. Compreendia que a morte não era nada além de um processo matemático e palpável, algo simples e natural. 

Peça inútil

    Sentimentos que me afligem pairam sobre esta coroa de espinhos. Como lidar com estes medos, estas vontades... Estes arrependimentos. A vida me parece um tanto frágil, instável, nunca caminhando em linha reta. Basta um olhar ou palavra, e tudo está diferente.

    Houve um tempo em que se poderia dizer que o Sol amanheceria sem consigo trazer receios. Houve um tempo em que viver valia a pena, ou pelo menos se valia a pena continuar buscando como se viver. Hoje algo parece ter mudado. Saber que um futuro incerto caminha engolindo sonhos e desejos, algo imposto pela sociedade hipócrita que te faz se sentir inútil, isso faz com que a vontade de continuar seja insignificante. De que vale viver sem motivos?

    Não sei o quanto mereço estar vivo...

    Nunca saberei se este último autorretrato será usado como estampa da lápide anunciando minha morte.  Não saberei se esta será minha última ideia impressa, se as roupas que visto serão as últimas antes do terno escuro coberto por flores que exalam o odor doce e suave da morte. A vida é incerta, tanto quanto a morte. É um jogo onde sempre o mesmo lado irá ganhar, e garanto que este não é o seu.

    Imagine que o corpo humano seja a peça mais frágil de todo este jogo chamado vida, e que um desses corpos podem ser seus pais, seus irmãos ou seus amigos. Já pensou quão dura será a partida? Já imaginou a despedida de quem mais se ama, para nunca mais vê-la? A vida pode ser bela, mas há uma beleza sádica aqui, uma beleza que não nega esforços para testar sua força, sua vontade e seus objetivos.

    Se há uma peça sem propósitos que valham a pena, jogue-a como benefício para outra maior. Não seja esta peça, não quero ser esta peça, espero nunca presenciar a hora em que esta peça for usada. 

Manhã

Nasce a luz
As cores mudam.
Muda o azul, o verde e o laranja
O amarelo e o lilás também se encontram
Em instantes todas as cores dançam.

Acorda os galos e os trabalhadores
Aquela gente que a gente insiste em não perceber.
Pede licença à névoa gélida
Que aceita sem se enfurecer.

Deixa aquele cheiro suave
Que de memórias distantes
De momentos felizes
Faz sorrisos aparecer.

As árvores balançam
Acordam os pássaros
Tratam de voar e cantar 
Gritar e abanar.

O silêncio não existe mais.

Sinal de vida.

Alegria no ar.

Um forte azul se entranha
Chega de manha
Chega a manhã.

Gente reclama 
Gente se alegra 
Mas sem muito pensar 
Todos percebem que mais um dia acaba de acordar.

Vocação


Queria ser escritor, mas escrever eu não sabia. Queria ser professor, mas o que ensinar não havia. Tentei então ser escultor, mas minhas obras ninguém entendia. Por fim, restou-me o amor, que há muito eu não vivia.

Lembrei-me então da dor e da mágoa que ele trazia, assim sentei-me ao canto e logo me veio uma melodia. Melosa e suave, mas que tristes recordações trazia. Então, veja só que emoção, encontrei minha vocação: depois de muito tentar, percebi que sabia compor uma linda canção.

Cantei num barzinho e todo mundo gostou, logo ouvi de longe, baixinho: "olha só meu sinhô, veja só que bom compositô". Larguei minha vida e lancei-me na estrada, não passou muito tempo e minha melodia se encontrava nas paradas.

Era autógrafo, era fã, era coisa que não acabava mais, talvez não fosse isso que eu buscasse tempos atrás.

Já cansado e abatido, encontrei um velho amigo: um fazendeiro muito bem-sucedido. Olhei com atenção e vi sua expressão: suave e despreocupado, com muita felicidade no coração. Que inveja que senti, tenho que admitir; imagine se fosse eu que estivesse ali? Não foi nem um dia e logo me veio a euforia: larguei tudo outra vez com convicção, estava decidido a voltar para o sertão.

Chegando lá meu amigo, você nem vai acreditar, estava tudo tranquilo e nenhum autógrafo teria de dar. Sabia agora que ali era minha vida e dali nunca devia ter partido, sabia agora que dali jamais haveria de mudar.

Análise;

Enquanto me aprofundo em meu ser, algumas coisas parecem se tornar tão difíceis ao ponto de parecerem simples. Simples somente em minha cabeça, meu mundo imaginário, onde qualquer situação se torna uma história com um final feliz. Procuro uma razão para este tormento em cada um dos meus passos dados, mas a cada passo que retorno tudo se torna mais escuro e sujo, ao ponto de eu me perder. Eu só preciso de uma explicação e um conforto, um conforto psicológico que faça com que me adapte a esse mundo, a essa situação. É injusto pensar que isso se resume a mim, porém seria injusto tratá-lo com desdém; algo tão pesado psicologicamente que se torna físico. Tento acreditar em minhas próprias palavras de que não me importo, mas na realidade, o maior dos problemas é sobre eu me importar. No final, acabo sempre sem uma conclusão, uma resposta; continua a dúvida e o peso sobre minhas costas e minha mente. Tentar parecer normal está longe de ser uma opção, mas acaba sendo meu único caminho para esta realidade.

O diário de um sobrevivente #1

O Sol nasce, os pássaros começam a cantoria matinal - apesar de passar despercebida na maioria das minhas manhãs. Abrir as janelas nem pensar, tampouco as portas e portões. Checar os cantos e ruas, becos e vielas, casas vizinhas e todos outros lugares possíveis.

Feito! Agora ir às compras...

Sabe, sair de casa poderia parecer prazeroso e tudo o mais, encontrar os amigos, ou uma caminhada rotineira... Parecia! Agora sair de casa pode ser a última coisa que fará em toda a sua vida. Não há amigos para encontrar ou cachorros e gatos correndo pelos lados, não. Existem pessoas! Sim, existem muitas pessoas que posso encontrar a qualquer momento, mas não digo que seria algo interessante e saudável. Veja bem, não sou uma pessoa antissocial, até gostaria de poder conversar com todas as pessoas que visse pela frente, porém isso, agora, poderia custar minha vida.
Checar o local: feito.

Conto: Em busca da felicidade...

Caminhava ela desprevenida, sem medos e preocupações. Olhava ao seu redor procurando por algo, como um olho doente em desfoco procura por um objeto distante ou próximo para focar.


Enquanto vivia tentava sorrir, quando a felicidade de outros extraía. Mas ela não sorria, tampouco sentia prazer. Repugnava seu ser e desejava a morte a todo instante.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiyuo9eDmvrMqQ_QliYpBMs0DIX10o2uG-6M_yNn-Q5EikjKBWn1icjtUJkDKTaaC5TEDw_22oI1Lv5gckT_NcZLq7-s35PJ5H4mVpAUDhUS-rj-B5J-HMDRrZv6k0f7oz4kYCTwdseQGY/Era tarde, o céu tingido de rosa e laranja banhava os sorrisos por toda a cidade. Todos tão depressa, por ela passavam tão lentamente como a última folha que cai ao início do inverno. Ela teria que dar um fim a toda alegria, ela, apenas ela o faria.

Olhava atentamente em todos os cantos da cidade, à procura de alguém tão infeliz quanto ela. Mas não era possível, obviamente. Nem a mais pobre das pessoas, nem a mais doente, nem a mais deformada. Nem mesmo a mais solitária das pessoas seria tão infeliz quanto ela. Mas ela ainda procurava.

Ao fim da tarde, estava atrasada. Hora de buscar alguém com pouca sorte, que a encontre beirando a morte. E então, ela encontrou...

O homem estava deitado em sua cama, doente e velho, mal respirava. Amparava seus filhos que o cercavam, tentava cessar suas lágrimas, mas todo esforço era em vão...

Ela bateu em sua porta, mas ninguém deu atenção. Nem mesmo ao ranger quando abriu, ou ao forte bater quando fechou. Sempre despercebida, sempre sozinha, ela pegou seu instrumento e levou ao encontro do velho doente.

Olhava para ele com pena, como se não quisesse fazer aquilo. Era sua obrigação, mas daria a vida para não o fazer. Apesar disso, não tinha outra forma: teria que levá-lo.

O velho doente olhava para ela com contentamento, tentando também ampará-la para que não se entristecesse. Ela por sua vez, não o olhava nos olhos, tinha medo de sua reação, pois ninguém se alegrava em vê-la. Entretanto, o velho segurou em sua mão por cima da velha capa, de onde saiu poeira e vento, como se ali ninguém nunca tocara. Ela o olhou nos olhos, finalmente via a felicidade onde pensava que não existia, ela então sorriu, como retribuição.

Ela segurou na velha e enrugada mão do homem, e levantou-o de sua cama. Saíram pela porta da frente enquanto ele ainda sorria. Ela o soltou e o viu partir, que acenava para ela enquanto ia.

Já era noite, ela caminhava pensante. Como seu último escolhido podia sorrir naquele instante? Curiosa, sentia algo diferente, algo que jamais sentira em toda sua existência: "Podia existir alegria na morte."

A morte então continuou sua caminhada, motivada agora a não levar consigo a tristeza, mas sim a alegria de quem buscava uma nova jornada. Bateu suas asas e voou, quando sua capa preta fundiu-se com a noite e desapareceu em meio a escuridão. Sorrindo, foi para bem longe, onde outro alguém, tão feliz em vê-la quanto seu último escolhido, encontrou.

Conto: A Menina e o Morangueiro. Parte II

  O jovem cavaleiro logo caiu em si, e entendeu que esta era a bruxa que enfeitiçara Margarette. Sentiu uma incontrolável vontade de atravessar sua espada pelo corpo da bruxa, mas acalmou-se e continuou espiando.


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0Ppo_xeyCWBK58ECrkzez0_-TtYounSKtCPLjoxm6BUkC-L3RHvwBw3e9-Nesl1JoMWoUIiA1XoFhBKxNxgSI16AHRMGKungJkKXFuYmD6p14RIxYvLgbv3_4D11HPpH7XUuNpMcksho/  Passaram-se alguns minutos, e a bruxa apagou a fogueira e foi para casa. O jovem cavaleiro a seguiu, tentando evitar qualquer tipo de barulho. Caminharam poucos metros, até que chegaram à velha casa. Margarette já estava em sua forma humana, e olhava atentamente pela janela, à procura de seu companheiro.

— Esperando alguém, minha querida? — Perguntou a bruxa, em tom sarcástico.

— Não, minha senhora. — Respondeu-lhe Margarette, tão triste como uma noite sem luar.

— Você continua tão bela como sempre, como é possível? — A bruxa segurava uma das mechas dos longos cabelos de Margarette. — Será minha prisioneira por muito tempo, acredito. As outras pobres donzelas... Suas belas feições eram tão passageiras que me arrependo de tê-las feito minhas prisioneiras. Um feitiço tão complicado como este, de transferência de beleza e revitalização, não pode ser desperdiçado com qualquer uma, não é mesmo? — A bruxa parecia pensativa, como se lembrasse de cada uma de suas vítimas.

— Sim, minha senhora. — Respondeu Margarette, ainda mais triste.

  Enquanto a bruxa tagarelava nos ouvidos de Margarette, o jovem cavaleiro espreitava ao redor da casa, preparando-se para entrar e atacar. Estava agachado em baixo do peitoril da janela, ouvindo a conversa. Foi então que tudo ficou em silêncio, apenas os sons da floresta eram perceptíveis. Sentiu um arrepio em sua espinha, olhou para trás e viu algo como fumaça se formando atrás dele. Nunca havia visto algo assim, mas logo imaginou o que seria: bruxaria. Retirou sua espada da bainha e a pôs em ordem de batalha, mas a bruxa não o atacou.

Conto: A menina e o Morangueiro.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg0Ppo_xeyCWBK58ECrkzez0_-TtYounSKtCPLjoxm6BUkC-L3RHvwBw3e9-Nesl1JoMWoUIiA1XoFhBKxNxgSI16AHRMGKungJkKXFuYmD6p14RIxYvLgbv3_4D11HPpH7XUuNpMcksho/  Era uma vez, uma linda menina que todos os dias ia para os longínquos bosques recolher flores para sua mãe doente. Uma vez, durante a viagem ao bosque, a menina foi surpreendida por uma velha, que estava atirada ao chão e pedia por ajuda. A menina, de muito bom coração, estendeu sua mão para ajudar a pobre velha.
  
  Seu rosto estava coberto por uma capa negra e velha, e suas mãos aparentavam ser tão velhas quanto o tempo. A menina, como uma amiga, pediu para que a velha retirasse o capuz para que ela a examinasse, para o caso de haver algum ferimento. A velha, com um sorriso malicioso, retirou o capuz. Seu rosto era pálido como a neve, e tão aparentemente velho quanto suas mãos. 
  
 A menina aterrorizou-se, mas não o demonstrou. Despediu-se da velha e pôs-se a caminhar. Mas não tardou e a velha a agarrou pelos braços, surrealmente forte, e disse que queria a agradecer.

— Muito obrigado minha jovem, muitos não parariam para me ajudar. — Disse a velha, ainda com o mesmo sorriso malicioso em seu rosto. 
— Por nada senhora, mas infelizmente tenho que ir, minha mãe me espera. — Insistiu.
— Espere! Tenho um presente como retribuição. — A velha estendeu sua mão, e nela havia um pequeno, mas aparentemente suculento morango.
  
 A menina apanhou o pequeno morango e agradeceu, mas a velha, insistente, pediu para que ela o comesse, dizendo que era o melhor exemplar que ela poderia comer em vida. A menina com muita fome e atraída pelo lindo morango, o pôs em sua boca.
  
 De início, sentiu-se maravilhada pelo quão saboroso era o morango. Mas em seguida, sentiu uma forte dor por todo seu corpo. Contorcendo-se, foi ao chão como se suas pernas não mais a agüentassem. Gritava por ajuda ao mesmo tempo em que chorava. A velha a olhava com o mesmo sorriso malicioso, mas agora exibia-se como vitoriosa.

Conto: O quão mórbido é o amor.

Caminhava o casal apaixonado. Fria e melancólica, a noite chorava por sua brisa, visível através da luz dos vários postes enfileirados pela rua.

Sentaram-se em um banco, tão gélido que recuaram ao tocá-lo. Abraçaram-se. Por trás, um homem encapuzado aproximava-se lentamente. As mãos aos bolsos do longo sobretudo garantiam-lhe um ar misterioso, mas não ameaçador - afinal de contas, estava muito frio. Ainda caminhando, sacou de seu bolso um objeto metálico, que refletia a pálida luz do luar que, tímido, escondia-se sobre um punhado de nuvens passageiras.

Antes que o rapaz apaixonado pudesse perceber, a faca atravessara sua amada violentamente que, já sem vida, caiu sobre seus braços. O homem encapuzado apanhou as jóias da pobre mulher e desapareceu sobre a névoa.

Ainda em estado de choque, o inconsolável rapaz olhava para suas mãos. O sangue quente escorria por elas até chegar ao chão e tingi-lo de vermelho. Ele tentava reanimá-la, mas já não havia tempo, ela já estava morte. Desesperado, pôs suas mãos trêmulas por debaixo de sua amada e a carregou até sua casa, onde a colocou sobre sua cama. Limpou o sangue e a cobriu, deitou ao seu lado e dormiu.

Passaram-se dias; ele ainda mantinha o cadáver em seus aposentos. O odor que exalava do defunto era quase insuportável, mas ele ainda dormia ao seu lado por todas as noites.

O ar mórbido e triste o deixava ainda mais fora de si, até que, vendo o estado que se encontrava os restos mortais de sua companheira, não restou-lhe outra opção a não ser substituir aquele corpo.

Saiu pela noite, como quem sai para passear. Avistou uma mulher que caminhava sozinha e desatenta. A rua estava deserta - ela era seu alvo. Da mesma forma que sua amada fora assassinada, ele atravessou as costas da mulher com uma faca pontiaguda, que nem ao menos teve tempo para um último suspiro. Seu corpo fora carregado pelo rapaz desolado, que parecia não se importar com o sangue que escorria.

Mês após mês ele mantinha sua rotina assassina. Substituía os corpos quando já não suportava o odor. Sua cama, tão pútrida quanto os corpos que por sobre ela jaziam, sua casa tão fétida quanto é possível de se imaginar; doente e fraco, pressentia que seus últimos dias se aproximavam.

Driblou a lei o quanto pôde, até que por fim o descobriram. Cercado pelo medo e desgosto, voltou a si. Prestando atenção em tudo a sua volta, via-se diante de uma carnificina inimaginável e, olhando para si, viu que há muito já não era mais o mesmo. Ele havia cometido tudo aquilo e, naquele momento encontrava-se sem saída. Percebeu o monstro que se tornara, mas já era tarde demais para voltar.

Correu até o porão onde guardara sua amada, ou o que restara de seu corpo. Apanhou a faca que trazia em seu bolso e, trêmulo, atravessou seu próprio peito, que pulava com as pulsações exaustivas de seu coração. Em seus últimos suspiros e forças, deitou-se ao lado do cadáver e fechou os olhos. Em um momento súbito, uma imagem veio-lhe como um conforto: o sorriso caloroso de seu grande amor. Sua lembrança mais pura e inocente de um tempo do qual jamais teria de volta.

Uma lágrima escorreu sobre seu rosto e, com o pouco de força que lhe restava, pediu perdão.

O amor, apesar de puro, tornou-o sádico, envenenou sua alma e afetou sua mente. Inerte a situação e impulsionado pelo ódio, fez com que sentissem o que ele sentiu, apesar de que esse não era o motivo dos homicídios. Queria, apesar de tudo, que sua amada estivesse com ele para sempre, mesmo que para isso tivesse que sacrificar sua sanidade - ou a si mesmo -, pois toda sua essência havia partido junto de seu grande e verdadeiro amor.

Individualismo

Apesar de necessário, as pessoas deixaram de viver coletivamente, para se fecharem em seus mundos e suas realidades paralelas, sem se dar conta do quão importante é ter um grupo de pessoas ao seu redor.

É notável a preferência das pessoas hoje pelo individualismo, quanto mais o tempo passa, mais as pessoas esquecem do principal objetivo da sociedade e apenas se fixam em suas vidas, se esquecendo que em volta existem milhares de pessoas.

Dinheiro, trabalho, tudo parece empurrar as pessoas a viverem sozinhas. No trabalho por exemplo, ninguém pensa em ninguém, apenas em si, para que cresça, consiga alcançar o cargo máximo e por sua vida nos eixos financeiramente. Claro, isso parece ótimo, mas como fica a vida da pessoa? Um dia tem apenas 24 horas, que seriam dividias mais ou menos assim: 10 para o trabalho, 8 para dormir, 3 para cuidar de papeis, dinheiro e documentos, e apenas 3 horas ficariam livres. Ou seja, nada de convívio direto com outras pessoas, apenas o convívio indireto, você sabe que outras pessoas estão ali, mas para você, são como nuvens passageiras, apenas mais um detalhe que logo irá sumir.

Claro, existem outros fatores que levam as pessoas a viverem individualmente, como a internet por exemplo. Com o crescimento da internet, as pessoas começaram a criar "outra vida" dentro dos computadores, passando mais tempo no mundo virtual do que no mundo real. Twitter, Orkut, Facebook, Tumblr, tudo contribui para que as pessoas passem mais tempo na internet. O que era para ser uma forma de lazer acaba virando um vício, principalmente para os adolescentes.

Na minha opinião, as pessoas deviam pensar melhor em suas vidas reais, tentar um convívio melhor com as outras pessoas. Nada forçado, sair sorrindo para qualquer um que aparecer, ou tentar puxar assunto com qualquer pessoa, não é exatamente conviver melhor, isso já seria doentio. Apenas tentar não se fechar para todos, porque sempre há alguém legal te esperando, só precisa procurar. Mas também, não precisa deixar o mundo virtual de lado, desde que isso não afete sua vida em geral, não é um problema.

Conto: Em meio ao nevoeiro

Lá estava ele, tomado por lagrimas, enquanto via sua amada partir.
A beira mar, pés sob a areia molhada pela chuva, que pareciam completar suas lágrimas.

Ela ia desaparecendo em meio ao nevoeiro, que engoliu tudo à sua frente.

Nós não podíamos ficar juntos – ele pensava.
Nós enfrentaríamos as barreiras – ele dizia.

Enquanto ainda ouvia-se o roncar do motor do barco, ele pensava em todos os momentos felizes em que viveram, pensava no amor que sentia por ela, pensava apenas nela. Mas ela teve de partir, mas ela teve de acompanhar os pais – que ainda traçavam seu caminho.

Ainda nos veremos – ele gritou.

Enquanto suas lagrimas se confundiam com as gotas melancólicas da chuva, ele olhava atentamente para o horizonte nublado à sua frente, desorientado, sentou-se ao chão, e viu um pingente em formato de coração, caído sob a areia.
Pegou-o e viu o nome de sua amada, apertou firme e colocou dentro do bolso da camisa.

Enquanto seu coração estiver próximo ao meu, sempre estaremos juntos – ele falou.

A dor da distância.

Antigamente, amigo era aquele que estava sempre ao seu lado, apoiando, criticando, ajudando. Era aquele que saia com você, que ia à sua casa e etc. Mas hoje, a amizade expandiu-se e rompeu as barreiras da aproximação. Mas isso é uma coisa boa?

A maior parte das pessoas hoje passa grande parte do dia em frente de um computador, principalmente os adolescentes. Com isso em mente, as pessoas criaram as redes sociais, que serviriam como meio de comunicação rápida entre amigos, mas também como forma de fazer novos amigos.

Mais e mais pessoas foram aderindo a essa idéia de relacionamento, e com isso, foram fazendo vários amigos, por toda parte do país, e até do mundo.

A amizade cresce, fica fora de controle, ou fora do nível aceito para uma amizade "falsa", que era apenas para se resumir a internet. Logo, já tratamos o novo amigo como o melhor - trocamos segredos, criamos planos...

Então, após meses de conversas a distância, bate aquela vontade de ter a pessoa ao seu lado, para sentir realmente a presença dela diante de você, saber como ela realmente é. Com isso, vem a tristeza de não poder ter a pessoa ao seu lado, com uma pitada de raiva, por várias vezes a amizade virtual ser mais amiga do que a amizade "real". 

O problema se torna ainda maior, quando o que era apenas uma amizade, se torna amor. Você ama uma pessoa que nunca viu, nunca tocou, nunca sentiu o cheiro ou o calor, nunca abraçou nem beijou, nunca nem esteve a 10 metros de distância. Mas você a ama, não importando as barreiras, você sabe que sente algo maior pela pessoa, maior do que uma simples amizade virtual.

Você sonha todos os dias em estar ao lado da pessoa, mesmo que ela more a muitos quilômetros de distância. Você sonha com o dia em que correrá para os braços dela, em que tudo parecerá em câmera lenta. Você sonha, mas o sonho acaba virando uma carta trancada em um baú, do qual você perdeu a chave. A chave no caso seriam todas as barreiras que impossibilitam a realização do sonho, como idade, dinheiro, etc, etc e etc...

Então, amizades virtuais são maravilhosas, mas ao mesmo tempo, machucam. Machucam por não podermos estar ao lado dos novos amigos - que são melhores do que amigos reais. Mas apesar de tudo, você sabe que poderá contar com a pessoa, não importam as circunstancias, ela estará ali, todos os dias em que você olhar seus contatos online, ela estará te esperando, estalando os dedos para começar a conversar com você por horas e horas...

Enquanto não inventam uma maquina de teletransportes, isso fica apenas nos sonhos. Mas quem sabe, algum dia, você encontre pessoalmente seu amigo virtual? E quem sabe, seu amor virtual? Esse que poderia, talvez, ser o amor da sua vida...

Modas sem sentido.

Ah algum tempo atrás não se via muito as palavras "antissocial" ou "bipolar" no meio adolescente. Mas hoje, com a moda do twitter, parece que todo mundo acabou virando as duas coisas. 

É interessante, porque eu realmente não entendo o que uma pessoa pensa quando tenta parecer que é antissocial - uma coisa ruim, que interfere muito na vida de uma pessoa, e que é uma doença. O mesmo acontece com quem se diz bipolar, mas não é. Só por você ser um (a) adolescente que odeia os pais e seu cachorro late muito alto - e isso te irrita, não te faz bipolar, no máximo uma pessoa estressada.

Às vezes eu também vejo uma pessoa que se diz antissocial, mas todo final de semana está descendo até o chão na balada, se descabelando, conversando, pegando e etc. Isso não faz sentido, já que ser mais sociável que isso não dá - é hilário até.

Se você acha que ser antissocial vai te fazer uma pessoa "mais legal" (?), tente conhecer uma pessoa que realmente é. Você vai ver como é difícil para ela e vai mudar sua opinião no mesmo instante. O mesmo vale para você que se diz bipolar, porque caso realmente seja, você precisa se tratar.

Imagem xerocada.

O que há com pessoas que insistem em tentar manter uma imagem que não tem nada a ver com sua própria personalidade?

Será a falta de conhecimento sobre si mesmo, ou apenas a tentativa absoluta por reputação sobre qualquer área?

Tomar como caminho a ser seguido, uma tendência, não é errado - não quando levado de maneira não-obsessiva. Mas tentar ser algo que você realmente - e impossivelmente - não é, é algo errado e doentio. A falta de confiança em criar um estilo que caracterize a si mesmo leva multidões de pessoas a viveram uma vida que não é exatamente sua, mas sim total ou parcialmente idêntica a de mais uma ou milhares de outras pessoas.

Nada justifica deixar de lado "você", para ser "ele (a)". Porque não tentar criar algo totalmente novo? O medo que toma toda uma maioria de pessoas faz com que o mundo seja movido a "diferenças iguais", ou seja, se você deixa de seguir estilo tal, para seguir estilo tal, você não está sendo diferente, nem mesmo está sendo você, mas sim estará sendo algo fabricado por um meio de comunicação popular que você acompanha.

Não que eu não seja - em alguns aspectos - igual a outras pessoas/estilos. Mas tento acima de tudo, ser eu mesmo, sem deixar algo agradável, bonitinho e popular tomar conta de mim. Ninguém precisa ser outra pessoa para ser alguém, mas sim ser alguém para ser diferente das outras pessoas. 

Então, seja você mesmo acima de tudo, mesmo que isso não condiga com a moda atual.

Texto para uma pessoa em particular.

O primeiro beijo.

Acho que todas as pessoas, com mais ou menos onze anos já começam a pensar no primeiro beijo. "Como vai ser" ou "Será que vou fazer direito" (isso serve pra outras coisas também, rs) são as perguntas mais frequentes, antes do tão esperado beijo.

Algumas pessoas esperam algo especial, em um lindo dia ensolarado, com pássaros voando e um lugar paradisíaco. Outras já esperam algo mais direto - pegar todas na balada e ninguém ficar sabendo que você nunca havia beijado.

Há também aquelas pessoas que ficam treinando, normalmente com uma maçã. Pegam a fruta e correm para um canto sem ninguém (normalmente correr para um canto sozinho na adolescência significa outra coisa...) e trocam uns amassos com a maçã.

Geralmente, o primeiro beijo acontece em uma hora em que ninguém esperava, só acaba acontecendo. Mas também existem alguns casos em que a pessoa prepara tudo, desde o local até a roupa que vai usar.

- O coração acelera, o suor começa a escorrer por todo o corpo, sentimos algo diferente, algo desconhecido, um calor em um dia frio. Então acontece, os dois lábios se encontram, o tempo para. Uma nova fase em nossa vida começa a partir desse beijo.

Então, os lábios se separam, um suspiro de alivio diz que a infância chegou ao fim. E então nos perguntamos:

"I feel happy"


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Quando eu era pequeno, uma das coisas essenciais no meu dia eram sorrir. Conforme fui crescendo, isso foi sendo meio que deixado de lado, sendo substituído por várias outras coisas que - pra mim - eram mais importantes.

Então eu penso — Pra onde fora toda aquela alegria, que por menor que fosse, ainda me faria sorrir?

Hoje, ouvindo uma música, eu senti algo diferente. Uma vontade de sorrir sem sentido, um pouco de água acumulada no canto dos olhos. Eu estava feliz.