O diário de um sobrevivente #1

O Sol nasce, os pássaros começam a cantoria matinal - apesar de passar despercebida na maioria das minhas manhãs. Abrir as janelas nem pensar, tampouco as portas e portões. Checar os cantos e ruas, becos e vielas, casas vizinhas e todos outros lugares possíveis.

Feito! Agora ir às compras...

Sabe, sair de casa poderia parecer prazeroso e tudo o mais, encontrar os amigos, ou uma caminhada rotineira... Parecia! Agora sair de casa pode ser a última coisa que fará em toda a sua vida. Não há amigos para encontrar ou cachorros e gatos correndo pelos lados, não. Existem pessoas! Sim, existem muitas pessoas que posso encontrar a qualquer momento, mas não digo que seria algo interessante e saudável. Veja bem, não sou uma pessoa antissocial, até gostaria de poder conversar com todas as pessoas que visse pela frente, porém isso, agora, poderia custar minha vida.
Checar o local: feito.

Entrar no super-mercado: feito.

Conseguir algo comestível para o desjejum: feito.

Apanhar o machado preso a cintura e partir a cabeça do vendedor sanguinário: feito!

"Oh! O que você fez?!" você deve ter se perguntado. Bem, isso já é algo comum de todas as manhãs por aqui. Houve um tempo em que me perguntava o mesmo que você, mas não há tempo para isso, nem motivos na verdade... Ou ele ou eu! Você sabe, quando há um zumbi pronto para arrancar sua cabeça ou comer suas entranhas, não há necessidade de um debate formal para decidir quem deve sobreviver. Eu bem que gostaria, juro! Mas os zumbis da minha cidade não estão muito para conversa.

Oh sim, zumbis!  Eu tinha dez ou nove anos quando tudo começou. Só me lembro de ver as noticias em jornais e então, toda a cidade entrar em caos. Desde que me lembro, sempre morei na rua com alguns amigos e outras pessoas aleatórias, então não teve alguém para levar à um abrigo ou coisa do gênero. Tive de me adaptar a tudo isso, e olha, consegui muito bem! A rua nunca foi um problema, sabe? Sempre houveram perigos e coisas estranhas ocorrendo aqui e ali, então um apocalipse zumbi só foi mais um caso estranho para entrar para a lista. Lembro de certa vez entrar em uma vídeo-locadora, e me deparar com alguns zumbis amontoados por cima de uma prateleira da seção terror, e ironicamente estarem bem onde haviam os filmes de zumbis. Eu realmente queria assistir aqueles filmes, ver como as pessoas se comportavam em meio a tudo isso, porém tinha que passar pelos zumbis para poder assistir os filmes. Foi uma batalha e tanto, mas eu acabei saindo por cima, aleijei os mortos-vivos com um extintor de incêndio e consegui os DVDs. Quando assisti, não pude conter os risos e tudo o mais, era realmente hilário como os diretores imaginavam os zumbis: simples pedaços de carne com pernas, andando para lá e para cá atrás de cérebros. Meu caro amigo, se você acredita que eles sejam assim, você seria um dos primeiros a se dar mau em um caso como o meu. Eles não burros - apesar de não saberem falar e realizar tarefas mais complicadas, eles são muito mais inteligentes do que aqueles dos filmes. Eles também podem correr, mas como seus corpos estão podres, existem certos limites que, se alcançados, eles acabam perdendo uma perna ou um braço, ou o que for. Um detalhe: eles não pulam! Até tentam, mas se conseguem dar o salto, logo se espatifam no chão e acabam ficando por lá mesmo, então geralmente eles nunca tentam. Isso é ótimo, pois consegui um local bem alto, o que faz dele bem seguro.  Outro detalhe: eles tem curto prazo de validade! Vi nos filmes zumbis que ficavam por muito, muito tempo perambulando por aí, mas isso é impossível na realidade. Eles duram no máximo cinco semanas. Durante esse tempo, seus corpos vão apodrecendo pelo calor ou pela chuva, então geralmente, dentro de um mês eles não passam de restos imóveis e fétidos.
  
Geralmente meus dias são entediantes e monótonos. Não é como nos filmes onde as pessoas não podem parar para respirar que logo brotará um zumbi de qualquer lugar aleatório para comer seus cérebros. O mundo é bem grande sabia? Tem muito espaço para os fedidos se espalharem. Existem vários, óbvio. Imagine 90% de uma cidade grande transformada nessas cosias. Porém eles não ficam por muito tempo no mesmo local. Eles também sentem fome. Então é muito pouco provável que eu me depare com um grupo de quinhentos zumbis me esperando no meio da rua. Um ou outro as vezes, mas isso acaba sendo divertido. Como eu disse no começo deste texto, sair de casa pode ser a última coisa que fará, mas são casos raros onde você será atacado de surpresa. Um pouco de sensacionalismo torna tudo mais interessante, me desculpe.

E  veja só! Já se passou metade do dia, já está tarde e nada de novo. Vi alguns filmes e joguei alguns jogos, comi enlatados e... nada mais.  É hora de dormir, meu caro e atencioso leitor, me desculpe se esperava algo extraordinário relatado aqui, mas até em um apocalipse as coisas podem ser entediantes. E é por esse tédio que me consome que vou deixar minha tarde e noite para dormir.

Checar o local: feito.

Trancar as porta e janelas: feito.

Me ajeitar em uma cama macia e aconchegante no sótão: feito!

Se estiver tudo certo amanhã, prometo relatar mais um dia de minha vida apocalíptica e prometo que não haverá mais sensacionalismo! Espero que haja alguma aventura ou coisa do tipo para que eu possa contar, não quero que você também morra de tédio e acabe virando um zumbi. 

Bill Billis, 16 anos. Até mais... 

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