Conto: O quão mórbido é o amor.

Caminhava o casal apaixonado. Fria e melancólica, a noite chorava por sua brisa, visível através da luz dos vários postes enfileirados pela rua.

Sentaram-se em um banco, tão gélido que recuaram ao tocá-lo. Abraçaram-se. Por trás, um homem encapuzado aproximava-se lentamente. As mãos aos bolsos do longo sobretudo garantiam-lhe um ar misterioso, mas não ameaçador - afinal de contas, estava muito frio. Ainda caminhando, sacou de seu bolso um objeto metálico, que refletia a pálida luz do luar que, tímido, escondia-se sobre um punhado de nuvens passageiras.

Antes que o rapaz apaixonado pudesse perceber, a faca atravessara sua amada violentamente que, já sem vida, caiu sobre seus braços. O homem encapuzado apanhou as jóias da pobre mulher e desapareceu sobre a névoa.

Ainda em estado de choque, o inconsolável rapaz olhava para suas mãos. O sangue quente escorria por elas até chegar ao chão e tingi-lo de vermelho. Ele tentava reanimá-la, mas já não havia tempo, ela já estava morte. Desesperado, pôs suas mãos trêmulas por debaixo de sua amada e a carregou até sua casa, onde a colocou sobre sua cama. Limpou o sangue e a cobriu, deitou ao seu lado e dormiu.

Passaram-se dias; ele ainda mantinha o cadáver em seus aposentos. O odor que exalava do defunto era quase insuportável, mas ele ainda dormia ao seu lado por todas as noites.

O ar mórbido e triste o deixava ainda mais fora de si, até que, vendo o estado que se encontrava os restos mortais de sua companheira, não restou-lhe outra opção a não ser substituir aquele corpo.

Saiu pela noite, como quem sai para passear. Avistou uma mulher que caminhava sozinha e desatenta. A rua estava deserta - ela era seu alvo. Da mesma forma que sua amada fora assassinada, ele atravessou as costas da mulher com uma faca pontiaguda, que nem ao menos teve tempo para um último suspiro. Seu corpo fora carregado pelo rapaz desolado, que parecia não se importar com o sangue que escorria.

Mês após mês ele mantinha sua rotina assassina. Substituía os corpos quando já não suportava o odor. Sua cama, tão pútrida quanto os corpos que por sobre ela jaziam, sua casa tão fétida quanto é possível de se imaginar; doente e fraco, pressentia que seus últimos dias se aproximavam.

Driblou a lei o quanto pôde, até que por fim o descobriram. Cercado pelo medo e desgosto, voltou a si. Prestando atenção em tudo a sua volta, via-se diante de uma carnificina inimaginável e, olhando para si, viu que há muito já não era mais o mesmo. Ele havia cometido tudo aquilo e, naquele momento encontrava-se sem saída. Percebeu o monstro que se tornara, mas já era tarde demais para voltar.

Correu até o porão onde guardara sua amada, ou o que restara de seu corpo. Apanhou a faca que trazia em seu bolso e, trêmulo, atravessou seu próprio peito, que pulava com as pulsações exaustivas de seu coração. Em seus últimos suspiros e forças, deitou-se ao lado do cadáver e fechou os olhos. Em um momento súbito, uma imagem veio-lhe como um conforto: o sorriso caloroso de seu grande amor. Sua lembrança mais pura e inocente de um tempo do qual jamais teria de volta.

Uma lágrima escorreu sobre seu rosto e, com o pouco de força que lhe restava, pediu perdão.

O amor, apesar de puro, tornou-o sádico, envenenou sua alma e afetou sua mente. Inerte a situação e impulsionado pelo ódio, fez com que sentissem o que ele sentiu, apesar de que esse não era o motivo dos homicídios. Queria, apesar de tudo, que sua amada estivesse com ele para sempre, mesmo que para isso tivesse que sacrificar sua sanidade - ou a si mesmo -, pois toda sua essência havia partido junto de seu grande e verdadeiro amor.
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